Uma Mente Quilométrica
Curadoria: João Pedro Pedro
Uma mente quilométrica
Abertura: 13 de junh de 2026, das 15h às 19h
Visitação: terça a sábado, das 14h às 18h
Artistas:
Gretta Sarfaty
Helena obersteiner
Lola Renanzeth
Rua Califórnia, 706 – Brooklin/SP
Entrada Gratuita

“Mas, infelizmente, não sei ver o carneiro através da caixa. Talvez eu seja um pouco como as pessoas grandes. Devo ter envelhecido.” — Antoine de Saint-Exupéry em O Pequeno Príncipe “Ver o carneiro através da caixa”, para os que não leram a famosa obra literária de Saint-Exupéry, representa o momento em que o piloto, após muitas tentativas de desenhar o carneiro perfeito para o pequeno, o presenteia com a ilustração de uma simples caixa, alegando que seu animalzinho estaria dentro dela. Uma frase simples, mas uma metáfora poderosíssima. Ver para além do que é apresentado, enxergar, nas coisas simples, belezas.
O potencial das coisas para além do que são. Ver nelas o que podem ser, sustentar essa visão e fazê-la real, transformá-las, é uma capacidade que todos nós humanos possuímos, nascemos com a habilidade mental necessária para isso. E apesar de carregarmos essa habilidade, uns mais e outros menos, por toda nossa vida, há um grupo que preserva o que chamamos de “criatividade” com toda a força possível, as crianças.
A palavra criança tem origem no latim creantia, derivada do verbo creāre. O termo evoluiu para representar o “ser criado”, “filho pequeno” ou aquele que precisa ser nutrido, indicando alguém em processo de formação. A terminação “-ança” indica uma ação ou resultado, ligando-a ao ato de criar. Criar também tem origem no latim creāre, que significa “produzir”, “gerar” ou “dar à existência”. Originalmente, o termo latino creāre tinha o sentido de “fazer crescer” ou dar vida. Aproximamos então, a criança do criar. Quando criança encontramos em sua forma mais genuína a criatividade, sem o peso ou a obrigação da técnica, da seriedade ou de um fim no ato. Nascemos com a visão e a imaginação, que, juntas, não apenas transformam coisas simples, mas suspendem o que elas são para que possam se tornar outra, elevam-se a um potencial criacional, criativo, lúdico e performático. Criamos porque queremos, da forma como queremos, sem uma ideia prévia de certo ou errado. O valor não está no resultado, mas na permanência no fazer. Desenhamos, recortamos, rabiscamos, colamos, brincamos.
Enfim, criamos. Essa simplicidade desencontra-se com as habilidades cognitivas dos adultos, se não exercitado, perdemos a capacidade de enxergar o potencial nas coisas simples, na construção manual de sua grandeza oculta. Somos treinados a receber tudo pronto, a reconhecer valor apenas no que já se apresenta como grande. Com o tempo, deixamos de investir energia em construir essa grandeza por conta própria. As coisas simples já não nos detém. Passamos por elas sem projetar nada, sem expandi-las. É isso que a exposição propõe.
Ela reúne obras simples em seus processos: nos materiais ou nas proposições. Obras que não buscam uma grandiosidade prévia, mas se aproximam da criatividade pura e do fazer manual. É, talvez, uma forma mais direta de criação artística: aquela que existe pela expressão, que não possui um objetivo definido e não está amarrada a algo externo além da vontade do criador de se expressar, de simplesmente fazer. É como uma brincadeira: a criação que encontra no próprio fazer o seu propósito.